30 de maio de 2006
posted by teorias at 09:21
Não sei o que diga nem muito menos o que sinta! O tempo passa e cada vez mais rápido... Chego até a pensar se o tempo não terá entrado num ciclo de aceleração contínua imperceptível ao ser humano comum... mas completamente evidente para mim. Quando penso que entrei para a faculdade há 9 anos sinto sinapses estranhas no meu cérebro (espero que não seja já o Alzheimer)... quando percebo que já trabalho há 4 anos sinto uma estranha sensação de desconforto (que é muito maior quando penso que ainda terei de trabalhar mais uns 38, mas adiante...). O que era suposto ser-se ou sentir-se nesta fase da vida? Se olhar para o passado percebo que nada do imaginava há 10 anos daquilo que seria agora se concretizou... o caminho que a vida me traçou não era propriamente aquele que eu tinha imaginado (sem, contudo, que isso seja melhor ou pior do que imaginei... apenas diferente). O problema que me angustia é que realmente não percebo... não percebo porquê... não percebo o propósito da vida... e isso angustia muito! Trabalhar 40 horas por semana... não ter forças para sair ou divertir-me ao fim-de-semana (isso se tiver algum amigo queira saltar fora do ritmo diário, socialmente aceite, do não se ter tempo para mais nada do que trabalhar) parece ser um estilo de vida demasiadamente redutor. Será que nascemos apenas para trabalhar? Alguns parecem que sim... eu, sinceramente, não! Devo ter nascido por qualquer outra razão que ainda não sei qual é... e isso angustia-me! Tenho a percepção que existo... e todos os dias em que sinto a vida passar em mim (outras tantas vejo-a apenas passar por mim) sinto um escorrer de angústia interior que me provoca desconforto... um arranhar contínuo que mantém em ferida constante a minha percepção de existência. Em alguns dias tenho a sensação que quando acordo me lavo num rio de incerteza, percorro uma estrada de desconforto e lido com multidões de incompreensão num mundo completamente angustiante. Noutros, tomo um duche de água quente, percorro a VCI e vou trabalhar, como tantas outras pessoas nesta cidade...
 
15 de maio de 2006
posted by teorias at 11:40

Será que queremos ficar sós?

Parece que sim... pelo menos é o que dão a entender a maior parte das nossas atitudes quando nos envolvemos com alguém. Normalmente acreditamos no amor como se ele tivesse a capacidade de ser tão intenso como a paixão. Mas não é... Eles são qualitativamente diferentes. A paixão é a vertigem louca que nos corta a respiração, embriagando todos os sentidos, numa dimensão irreal em que nos esquecemos de nós. O amor é a serenidade profunda de estar com alguém que, egocentricamente (ou não!), vislumbramos como sendo uma parte de nós. Uma parte intrinsecamente cravada no nosso modo de ser e de estar e da qual não colocamos sequer a possibilidade de nos vermos amputados.

Mas o que mais me inquieta é a percepção do paradoxo (ou não!) de que o Amor também dói. Dói e dói muito... sobretudo quando nos deixamos levar pelo egoísmo dos sentimentos arrebatadores que queremos para nós próprios e nos esquecemos que na relação existe também uma outra pessoa que, espantem-se, também tem essa nobre capacidade de sentir! Claro que se nos esquecemos de que a relação é algo mais do que apenas nós próprios podemos estar a sentir algo com muita intensidade que, sem dúvida alguma, não é Amor!

O Amor não é grande, forte e intenso por si só... ele tem essa capacidade porque é inexplicavelmente frágil e humilde! Quem não perceber que é nas fragilidades que ele constrói a sua força não será capaz de se despir nos seus medos, receios, dificuldades e defeitos de forma a, na relação, se ir progressivamente encontrando com e na relação com o outro. O Amor é uma descoberta/construção a dois... talvez mesmo mais construção do que descoberta (e isso é fundamental para o argumento que quero explorar), mas num plano real... mas afinal o que é isso do real? Agora fala-vos também alguém que já teve o privilégio de ter sentido Amor e Paixão. O problema é que a nossa realidade é, grande parte das vezes, diferente da realidade de quem está ao nosso lado. Se, numa fase inicial, é extremamente aliciante conhecer uma pessoa diferente, com outra forma de ser e de estar na vida, por outro, com o evoluir da relação, contacta-se que estivemos disponíveis para explorar/descobrir (o outro e nós na relação com o outro) mas não estamos disponíveis para construir uma nova realidade. Uma nova realidade da relação que é, necessariamente, diferente das realidades individuais de cada um. Só que isso implicar mudar, abdicar e perder... e nesta sociedade tão individualista poucos são os que estão disponíveis para isso!

Não quero ficar só. No fundo acho que ninguém quer! Mas pela maneira como nos comportamos (entenda-se que falo da generalidade e não de todos) até parece que o queremos... Não existe amor eterno nem paixão eterna (sobretudo quando não se trabalha para combater isso). Como nos dizia Jean Anouilh “se Deus quisesse que o amor fosse eterno, teria feito que se mantivessem as condições do desejo”. Claro que isso seria deixar toda a responsabilidade nas mãos de Deus e nos desmarcarmos de algo que tanto nos diz respeito e sobre a qual temos tanta responsabilidade. Se as condições do desejo não se mantêm compete-nos a nós fazer com que elas renasçam de uma maneira mais forte e mais intensa... claro que é muito mais fácil deixar morrer tudo... Por muito que custe a grande parte das pessoas (pelo menos às mais românticas) as relações ultrapassam, e muito, os afectos de uma maneira geral e o Amor e a Paixão de forma particular. Quem utopicamente quiser viver uma relação abraçado apenas à intensidade destes sentimentos corre um grande risco de apenas se abraçar à infelicidade. Por outro lado revela aquilo que para mim é um grande sinal de uma imaturidade egoísta, tão antagónica daquilo que eu (deixem-me frisar bem que é a minha opinião pessoal) pinto como sendo uma relação amorosa!
 
4 de maio de 2006
posted by teorias at 12:21

Dói-me a alma, mas não o posso dizer a ninguém. Sinto-me estranhamente oscilante no que diz respeito ao humor, mas guardo isso só para mim. Esta é a única forma de dor que não pode ser expressa! Não pode porque as pessoas são implacáveis quando percebem que existe alguma coisa que, mentalmente, não está bem. Experimentem começar a manifestar comportamentos obsessivo-compulsivos junto das pessoas que vos são mais próximas… experimentem manifestar comportamentos ou sintomas de humor depressivo… ou um estado maníaco agudo… as pessoas que nos circundam não conseguem lidar com estas situações e rapidamente as apelidam de loucura. A fronteira entre a sanidade e a loucura é ténue… e é o medo de nós mesmos ficarmos loucos que nos leva a afastar todos aqueles que, espontânea ou distraidamente, pisam ou passam a fronteira da (in)sanidade. Isto não exclui que todos nós não tenhamos episódios de aproximação e mesmo de transposição da fronteira, mas, nesse caso, ocultamos tais factos para que ninguém saiba… é que se souber estamos sujeitos à total exclusão. Imaginem as pessoas a reagirem se lhes disserem: “sou obsessivo-compulsivo” ou “sou esquizofrénico paranoide”. Palavras como psicótico pairam na nossa cabeça como rótulos de pessoas a evitar… nem reparamos que nos cruzamos com eles todos os dias… apenas não sabemos quem são, e eles, muito menos, têm vontade de nos dizer.
A (in)sanidade mental é muito diferente da física. Ninguém deixa de se queixar do estômago se tiver dores… metade do país queixa-se de enxaquecas e cefaleias sem problema nenhum. Pelo contrário. Cada vez que alguém se queixa a preocupação de quem os rodeia é imediata… e os cuidados prestados ao “doente” proporcionam benefícios que todos gostam e, por vezes, até ambicionam. Uma pessoa é internada no hospital após um AVC e dois dias depois tem a família, os amigos, os colegas de trabalho, os colegas do clube de ténis, os colegas da associação comercial e, se for preciso, os colegas da liga protectora da reserva nacional da serra de Bornes! Se essa mesma pessoa for internada num hospital psiquiátrico, ao fim de um mês, com muita sorte, talvez já tenha tido mais do que um visita. Sou levado a questionar-me em qual das duas situações será mais necessário o apoio familiar e social…
Quantas vezes chegamos a casa e nos apetece explodir… sentimo-nos rasgados por dentro, dilacerados de angústia… angustia essa que, engolimos… que aprisionamos em momentos de solidão impartilháveis devido ao medo de se ser incompreendido… de se ser erradamente interpretado! Quem nunca passou a fronteira que me atire a primeira pedra…