
Dói-me a alma, mas não o posso dizer a ninguém. Sinto-me estranhamente oscilante no que diz respeito ao humor, mas guardo isso só para mim. Esta é a única forma de dor que não pode ser expressa! Não pode porque as pessoas são implacáveis quando percebem que existe alguma coisa que, mentalmente, não está bem. Experimentem começar a manifestar comportamentos obsessivo-compulsivos junto das pessoas que vos são mais próximas… experimentem manifestar comportamentos ou sintomas de humor depressivo… ou um estado maníaco agudo… as pessoas que nos circundam não conseguem lidar com estas situações e rapidamente as apelidam de loucura. A fronteira entre a sanidade e a loucura é ténue… e é o medo de nós mesmos ficarmos loucos que nos leva a afastar todos aqueles que, espontânea ou distraidamente, pisam ou passam a fronteira da (in)sanidade. Isto não exclui que todos nós não tenhamos episódios de aproximação e mesmo de transposição da fronteira, mas, nesse caso, ocultamos tais factos para que ninguém saiba… é que se souber estamos sujeitos à total exclusão. Imaginem as pessoas a reagirem se lhes disserem: “sou obsessivo-compulsivo” ou “sou esquizofrénico paranoide”. Palavras como psicótico pairam na nossa cabeça como rótulos de pessoas a evitar… nem reparamos que nos cruzamos com eles todos os dias… apenas não sabemos quem são, e eles, muito menos, têm vontade de nos dizer.
A (in)sanidade mental é muito diferente da física. Ninguém deixa de se queixar do estômago se tiver dores… metade do país queixa-se de enxaquecas e cefaleias sem problema nenhum. Pelo contrário. Cada vez que alguém se queixa a preocupação de quem os rodeia é imediata… e os cuidados prestados ao “doente” proporcionam benefícios que todos gostam e, por vezes, até ambicionam. Uma pessoa é internada no hospital após um AVC e dois dias depois tem a família, os amigos, os colegas de trabalho, os colegas do clube de ténis, os colegas da associação comercial e, se for preciso, os colegas da liga protectora da reserva nacional da serra de Bornes! Se essa mesma pessoa for internada num hospital psiquiátrico, ao fim de um mês, com muita sorte, talvez já tenha tido mais do que um visita. Sou levado a questionar-me em qual das duas situações será mais necessário o apoio familiar e social…
Quantas vezes chegamos a casa e nos apetece explodir… sentimo-nos rasgados por dentro, dilacerados de angústia… angustia essa que, engolimos… que aprisionamos em momentos de solidão impartilháveis devido ao medo de se ser incompreendido… de se ser erradamente interpretado! Quem nunca passou a fronteira que me atire a primeira pedra…