
Tenho ouvido ultimamente, com demasiada frequência, que a felicidade é o objectivo... a meta... a finalidade e, quiçá, o propósito da vida humana. Pelo menos é maioritariamente aceite que assim é! Na verdade não conheci ninguém, nesta minha existência com duração... significativa (pelo menos para mim) que me tenha dito que o propósito não é este e que é outro qualquer. Mas por ser aceite por quase todos, não quer dizer que seja verdade. Já Popper dizia que “300 gansos brancos não provam que todos os gansos são brancos. Mas basta um ganso preto para provar que os gansos não são todos brancos”. E, realmente eu ouso discordar... por uma razão muito simples: a afirmação de que o objectivo da vida de cada um é alcançar a felicidade não tem espessura psicológica nem consistência social. A Felicidade não é um traço estável, que uma vez atingido não mais desaparece, mas antes um estado, que pode ser bem fugaz e momentâneo. Deste modo, não podemos dizer que somos felizes, mas antes que estamos felizes. Se apenas temos momentos felizes, isso quer dizer que existe todo um espaço que pode ser preenchido por momentos infelizes! Nesse caso, sou levado a concluir que nunca existiu nenhum Homem capaz de atingir um estado em que a felicidade fosse permanente. E mesmo que o tivesse conseguido, como saberia ele que aquilo era felicidade? Como saberia ele que não poderia ser mais feliz do que aquilo? A felicidade só existe por comparação. Hoje podemos estar felizes porque ontem não nos sentíamos bem... estávamos tristes. E só nos definimos como estando tristes porque sabemos o que é estar mais feliz! Se então a felicidade permanente não existe, e muito menos faz sentido, porque continuamos a procurá-la? Não sei! Apenas sei que me sinto feliz por ter momentos tristes que me mostram que outros são melhores do que esses. Não renego que entristeço... que sofro com isso... mas o objectivo da minha vida é aprender a lidar com esses momentos (e não atingir a felicidade... de forma gratuita), aprender a superá-los, aprender a espremer deles o sumo que me faz crescer. E embora todo este processo não seja nada fácil... de certa forma, aprecio-o! Aqueles que continuam a procurar incessantemente a felicidade são aqueles que, renegando o sofrimento, mais o abraçam... que procurando ser felizes menos vezes o conseguem estar!