27 de setembro de 2005
posted by teorias at 13:58


Nos últimos tempos tenho-me rendido à incapacidade que sinto para escrever neste blog. Mas para isso tenho uma teoria...
Diria que se chama a teoria da desestruturação silenciosa. Este fenómeno ocorre sempre que, por alguma razão, perdemos as nossas referências, o chão nos foge dos pés e o mundo nos cai em cima... aí, perdidos na confusão de já não sabermos mais quem somos, deixamos de querer falar... Não falamos de nós porque já não nos conhecemos, não falamos dos outros porque isso implica uma relação entre eles e nós próprios (e nós não sabemos quem somos), não falamos do mundo porque lhe viramos as costas quando ele teve o desplante de nos cair em cima... Deste modo nos remetemos ao mais profundo silêncio, num estilo próprio de hibernação humana em que o fim último é ganhar coragem para viver.
Uma pessoa próxima, disse-me em tempos, que este fenómeno seria apenas combatido se tivéssemos coragem de gritar. Hoje, a algum tempo de distância, tenho que admitir que ela tem toda a razão...
 
16 de setembro de 2005
posted by teorias at 10:00
Eles não sabem que o sonho
é uma constante da vida
tão concreta e definida
como outra coisa qualquer,
como esta pedra cinzenta
em que me sento e descanso,
como este ribeiro manso
em serenos sobressaltos,
como estes pinheiros altos
que em verde e oiro se agitam,
como estas aves que gritam
em bebedeiras de azul.


(...)

Eles não sabem, nem sonham,
que o sonho comanda a vida,
que sempre que um homem sonha
o mundo pula e avança
como bola colorida
entre as mãos de uma criança
.
 
12 de setembro de 2005
posted by teorias at 08:53

Quando temos 10 anos e nos chateamos com os nossos pais queremos ter 18 para entrar para a universidade e para poder fazer o que quisermos. Quando temos 18 e entramos para a universidade queremos ter 23 para acabar o curso e começar a trabalhar. Quando temos 23 e começamos a trabalhar queremos ter 30 para ter condições para casar e ter filhos. Quando temos 30 e temos filhos queremos ter 40 para os poder ver crescer. Quando temos 40 e os nossos filhos já são grandinhos queremos ter 50 para podermos consolidar a carreira e ganhar muito dinheiro. Quando temos 50 e olhamos para os nossos filhos queremos ter 60 para podermos ter netos. Quando temos 70 anos e os nossos netos 10, olharmos para eles e dizermos com a maior nostalgia “…se eu tivesse a tua idade!”. Vivemos agarrados ao futuro, sem tempo para viver o presente e nostálgicos de um passado que não conseguimos viver… É caso para perguntar: para quê ter pressa?!
 
2 de setembro de 2005
posted by teorias at 08:58

Não era preciso ser assim
Difícil, penoso e cru.
Mas eu suporto a custo
Todo o corrupio dos dias
Que soltam medos em mim.
Não sei onde estou,
Onde estás tu,
E que fazem minhas mãos vazias.
Não era preciso ser assim,
Mas sei que o gozo de estar vivo
Vai mais além de tudo o que imagino.
As amizades sinceras
Mostram-me a verdade cortante
Do contraste existente
Entre os mundos tão diferentes
De mim e de ti.
Não há lutas nem quimeras,
Nem destreza de assaltante
Capaz de mudar aquilo que não ser quer.
Não era preciso ser assim.
Mas que posso eu fazer
Encurralado no sufoco da impotência
De querer fazer o que não se pode,
O que não se consegue!
Preciso dominar o medo,
Preciso ter paciência,
Confiança em mim.
Mas há tanta coisa que não percebo...
Não era preciso ser assim.


Estas palavras de Garcia Sá Couto descrevem bastante bem o meu estado de espírito nos últimos tempos. Na verdade parecem-me palavras capazes de suscitar alguma capacidade introspectiva a quem quer que as leia. Daí a minha vontade em partilhá-las...