
Não é surpresa para ninguém que a sociedade em que vivemos é egoísta... que fomenta o individualismo... que valoriza o prazer imediato... mas, como me parece lógico, isso tem implicações na vida de cada um. Se por um lado é a sociedade competitiva que fomenta tal postura, por outro, parece ser a desagregação/transformação da família que a alimenta e faz crescer. Deixamos de ter famílias numerosas, onde irmãos, tios, sobrinhos e avós coabitavam ou viviam em espaços próximos para passarmos a ter famílias nucleares cada vez mais reduzidas. Se a primeira catalisava o surgimento de laços e de sentimentos de pertença, a segunda (contextualizada nas mudanças sociais que estão na sua génese) tem originado confusão, alheamento e falsos sentidos de independência! Confusão, na medida em que, ao crescer, são poucas as pessoas que servem de referência (cada vez mais circunscritas aos pais... quando estes estão presentes, claro!). Alheamento na medida em que a falta de sentimentos de pertença acaba por originar uma vida com poucos sentidos e muitas direcções (e quais seguir?). E sentimentos de falsa independência na medida em que não se pode ser independente dos pais ou de uma família à qual, na prática, nunca se pertenceu (no sentido emocional do termo, obviamente). Assim luta-se ou promove-se uma independência que nos leva “orgulhosamente” até à solidão! O mesmo tende a ser feito com todas as outras relações que se estabelecem... é o medo ou o não investimento nos compromissos amorosos... é a sensação de que não se precisa deste ou daquele amigo, sempre que surge um conflito. O afastamento vai surgindo pelas mensagens sms ou pelos mails, utilizados como forma privilegiada em relação ao contacto face-a-face. Hoje vive-se maioritariamente só... numa casa apenas com uma pessoa.... onde se vêm filmes sem companhia... onde se fala com a família pelo telemóvel e com os amigos pela net. Continua-se a apregoar aos sete ventos e a dizer com todo o orgulho “sou completamente independente” ao invés de assumir que se vive uma solidão sem condições... mas que tanto condicionaliza.
