24 de março de 2006
posted by teorias at 09:11
Numa fase em que o país inteiro se mobiliza em prol do conhecimento eu, paradoxalmente, ou não, faço aqui a defesa a ignorância. Não é a ignorância pela ignorância, mas o direito que cada um tem de não querer saber mais do que aquilo que já sabe. Existe algum estudo científico que prove que uma pessoa com muito conhecimento é mais feliz do que uma pessoa ignorante? Que eu saiba não (claro que corro o risco de ser ignorante neste tema). Vou utilizar a minha própria experiência para provar que isso nunca poderá ser provado.
Tive uma infância feliz... recheada de fantasias... uma das minhas grandes desilusões foi aos 6 anos. A minha mãe, sem grandes rodeios e precavendo-me de que eu já era um homenzinho, disse-me que o Pai Natal não existia (ainda hoje preferia não saber). Aos 11 anos fiquei aterrorizado com a Guerra do Golfo... pensei que o mundo todo poderia entrar novamente em guerra e que poderíamos morrer todos. A minha prima, da minha idade, não via o telejornal e nem sabia que havia guerra... continuou a vida dela feliz e contente... na sua ignorância. Aos 15 anos apaixonei-me loucamente... foi uma bonita história de descoberta emocional até que um dia, levado pela curiosidade, quis saber o que ela realmente sentia por mim... fiz uma pergunta directa e queria saber a resposta... hoje penitencio-me e preferia nunca a ter ouvido! Aos 18 anos queria ser alguém, fazer algo por mim e pela sociedade... por isso procurei um curso que podesse satisfazer essa necessidade. Candidatei-me... entrei... festejei o feito... e entreguei-me de corpo e alma ao curso. Logo no primeiro ano trataram de me fazer saber que o curso não tinha saída profissional e que oferecia desemprego... ainda hoje não sei como “agradecer” a esses tipos por me estragarem os planos.
Hoje sei que não tenho dinheiro para comprar uma casa... sei que Astana é a capital do Cazaquistão (mas nunca lá fui)... sei que tenho de trabalhar 40 anos... sei que posso trabalhar esses 40 anos e no fim não ter direito a reforma... sei que existe um vírus denominado H7N7 que pode ser tão ou mais perigoso que o H5N1... sei que sei muita coisa e que essa coisa toda, normalmente, não me serve de nada! Mas também sei que às vezes é melhor não saber... e não saber também é um direito... embora muitos não saibam disso... e talvez por não o saberem é que conseguem ser felizes sabendo alguma coisa! Este tema é complexo... mas vocês sabem que eu sei que vocês não sabem que eu não sei!
 



6 Comments:


At 07 abril, 2006 09:13, Blogger teorias

Querida et... nesse caso, se soubessemos menos sofreríamos menos e o ser humano procura, inatamente, saber mais... deduzo que então o ser humano seja inatamente masoquista!
Continuo a achar que o conhecimentop pode até nos ser útil, mas grande parte das vezes, apesar da utilidade, não contribui para que nos sintamos felizes! Por outro lado, o conhecimento ideológico pode ser muito mais apropriado à construção da nossa felicidade... Podemos moldá-lo consuante as nossas expectativas, princípios e valores.
Deixem-me pelo menos escolher aquilo que quero conhecer e de que forma...

 

At 07 abril, 2006 20:51, Blogger Elektrik_Girl

Este texto está simplesmente genial!
A minha sapiência é limitada, não por não ter "capacidades", mas por ser preguiçosa e não exercitar a mente por tudo e por nada como os pseudo-intelectualoídes tão veementemente defendem! Estou num curso sem grandes saídas (presentemente) e que e me desagrada, e acho que todos nós sofremos um pouco de tudo o que referiste, contudo o que mais me agrada é o direito de colhermos o saber que queremos e quando assim o desejamos!
Desejava ser um pouco mais curiosa em relação a tudo o que me rodeia, mas como não o sou, e é tudo uma questão de personalidades distintas, só posso "premiar" a tua capacidade de falar de algo que é tão simples mas tão constrangedor ao mesmo tempo.

 

At 10 abril, 2006 18:50, Blogger teorias

Este comentário foi removido por um gestor do blogue.

 

At 11 abril, 2006 08:53, Blogger teorias

elektrik... diz o nosso povo, e tão sapiente que ele é, que "a curiosidade matou o gato"! por alguma coisa o povo começou a dizer isto...
O grande problema das saidas profissionais é uma chatice, sobretudo a independência financeira tardia... e isso é preocupante (mas nesse caso... benvinda ao grupo dos insatisfeitos... embora eu já tenha arranjado emprego... uma sorte!). Não posso é esquecer que se quero ter saída profissional no fim do curso devo ser eu o primeiro a promovê-lo... o que nem sempre se torna fácil. Por outro lado temos de começar a pensar que a nossa formação é sempre uma formação de base e que temos de estar preparados para constantes reformulações e reciclagens.
Agradeço o teu elogio, pois não é facil elogiar teorias tão disformes das comummente aceites... às vezes, quando me agarro à realidade humanamente partilhada, acho que só digo disparates...

 

At 11 abril, 2006 23:46, Blogger Vera

pois bem eu prometi que voltava e voltei... emais uma vez fui surpreendida pelos textos magnificos que aqui tens!!!
Tal como tu também alguém me fez saber logo no primeiro ano que o curso não tinha saída...mas mesmo assim não desisti e acabei-o faz agora duas semanas.
as vezes penso que sou mazoquista por me meter em cada uma que só Deus sabe como me livro, isto tudo porque prefiro conhecer a ficar eternamente na ignorância...já muitas vezes disse..."olha que se lixe deixa cá ver como é!!!", as vezes corre mal mas outras corre bem e eu fico feliz da vida!!! o curso é um exemplo, não o abandonei por nada bem sei que terei de esperar algum tempo até poder dar aulas mas o que é que se pode fazer, se não o tivesse feito...jurava que é mentira, lol
pois bem ignorancia só em algumas circunstancias noutras prefiro testar :)
jks

 

At 18 abril, 2006 12:50, Blogger teorias

Queridas amm e vera... as coisas são como são. E nós sabemos disso! Sabemos que os nossos cursos têm pouca saída, sabemos que temos dificuldades... e sabemos que sabemos disso! Assim como sabemos que há coisas que é melhor não saber e outras saberes que não trocávamos por nada.
Se sabemos coisas sobre aquilo que sabemos, isso que dizer que somos capazes de ter meta-saberes... e os meta-saberes são já processos bastantes complexificados para quem prefere, não raras vezes, não saber nada!
Como diria o filósofo, "só sei que nada sei" (o que por si só, também é um meta-saber :)
Obrigado pelos vossos comentários