27 de setembro de 2006
posted by teorias at 09:06

Desde sempre me tenho questionado sobre as razões que levam o ser humano a iludir-se. Cada um de nós já viveu uma ilusão (e a consequente desilusão) não já? Acho realmente inquietante que assumamos para nós mesmos que podemos viver um “conto de fadas”... mesmo sabendo que a realidade é muito diferente! De qualquer forma achamos que cada um deveria procurar viver um... ou por outras palavras... deveria iludir-se! Apresento aqui a ilusão como uma fuga... como uma negação da realidade humanamente partilhada. Uma coisa me parece óbvia... não gostamos da realidade que temos... e, como tal, procuramos viver alternativas frágeis, inconsistentes e precárias de uma realidade internamente construída... com a extrema capacidade de desabar a qualquer instante e nos deixar desalojados de sentido! Mas saber isto pouco interessa... mesmo sabendo-o bem qualquer um de nós prefere viver na ilusão. É que na ilusão nós somos, forçosamente, felizes. Ninguém vive uma ilusão de infelicidade... pelo menos enquanto a ilusão dura (depois de ela terminar a história é outra). Poucos são aqueles que, com as condições reais de vida, têm oportunidade de, na realidade, serem felizes. Os outros, esses, iludem-se para pelo menos, enquanto o fazem, viverem na felicidade...
 



8 Comments:


At 27 setembro, 2006 11:51, Blogger Ponta Solta

Eu muitas vezes penso que os contos de fada ou foram inventados para nos atrofiarem a realidade nua e crua, ou para podermos fugir dessa realidade.

Se repararmos, tudo o que é mau, nunca é ilusório, e uma vez que os contos de fada foram inventados, estes transportam-nos para a possibilidade de que as coisas boas, também poderão ser concretas e reais, em vez de serem só a ilusão que nos contaram.

Questionando a ilusão da felicidade, pergunto-me muitas vezes em que ponto começa e acaba a ilusão, por exemplo: será que aquele que acha que ter saúde é o bastante para ser feliz, ignorando aquilo que o dinheiro(por exemplo) pode porpocionar em prol da sua felicidade, se ilude com pouco, ou nem sequer se ilude? Será que aquele que só vive feliz com dinheiro e luxos, se ilude, por descartar outros factores que podem condicionar a suposta felicidade?

Como é que podemos dizer num momento ou no outro, que em qualquer um destes exemplos, eles estão de facto iludidos?

Uma coisa é certa, em algum momento, vivemos sempre a ilusão(????) de que as coisas podem ser melhores do que o que são... e nesse momento lembramo-nos dos contos de fada que nos contaram, do euro milhões que podia sair (porque até jogamos), etc... Ou piores, que em vez de estarmos sem cheta nem para um pão, que podiamos estar atracados a um leito.
Ilusões? Possibilidades?

Dividimo-nos entre a ilusão e os exemplos de possibilidades que temos para tentarmos ser felizes...

 

At 27 setembro, 2006 16:53, Blogger teorias

Concordo com a criação dos contos de fada como fuga à realidade sabendo nós que o que é mau é extremamente real. Agora acho preocupante que a felicidade apenas seja vislumbrada numa esprança de que a ilusão que alimentamos se possa transformar em realidade muito á imagem da história do Pinóquio.
Os limites da ilusão são muito ténues... pouco vincados... tal como os limites da própria realidade! Acho que cada um acaba por definir, mais ou menos, os seus!
Eu também tenho as minhas ilusões... também jogo no euromilhões (mesmo sabendo que a probabilidade de me sair o prémio é de um para 72 milhões), também sei que existem muitas pessoas em pior situação que eu, mas a miséria dos outros não aumenta a minha felicidade... a felicidade é um estado... um estado para o qual se "trabalha"... pelo qual se luta... e que, para mim, tem mais a ver com questões intrínsecas de cada um e muito pouco a ver com questões externas... digo eu!

 

At 27 setembro, 2006 17:40, Blogger Ponta Solta

Por isso eu quis dizer que a ilusão acaba por ser limite e definição de cada um.

Por mais que eu pergunte não consigo dizer, nem ninguém me consegue dizer o que é a felicidade.

Se não a buscarmos e não lutarmos por ela, ela não vem ter conosco, e aí há um todo intrínseco, o facto é que, dependendo desse factor intrínseco, há muito factores externos adjuvantes.

Se me disseres que há gente que vive na ilusão de trabalhar e ser uma pessoa banal e que cuja versão de felicidade é vislumbrada pelo encontro de um príncepe das Astúrias, que se apaixona por nós, nos leva a conhecer a família real e faz de nós princesas, como a Letícia, dou-te toda a razão possível e imaginária.

E talvez, se não há uma certeza qto à definição de felicidade, acho que posso dizer, que haverão muitos "episódios", considerados como modelos... Tipo a "galinha da vizinha...", na versão que apresentaste, a história do Pinóquio...

 

At 28 setembro, 2006 12:56, Blogger ruth ministro

A ilusão como negação da realidade?... Porque não como uma construção alternativa a essa mesma realidade? Porque não como escape conciliável, como estratégia de fuga às vezes tão necessária? Os contos de fadas são irrealistas, é certo, mas ajudam tanto a adocicar a vida que tem momentos tão amargos... eu adoro sonhar, não vivo sem essa pitada de fantasia :) Beijos

 

At 28 setembro, 2006 14:29, Blogger teorias

et, tantas vezes nos perdemos a olhar para os intermédios sem repararmos que as coisas ou são ou não são! Tanta falta nos faz, por vezes, alguma clarividência, pragmatismo o objectividade.

utzi, compreendo a tua opinião... embora vás ao encontro daquilo que eu próprio aponto. Não estou contra a fantasia, muito pelo contrário. Já disse várias vezes que o sonho comanda a vida e tal como tu também a considero importante. Mas existem diferenças entre fantasia e ilusão. A fantasia transporta-nos para alternativas mais positivas às quais nos vamos moldando e temos a capacidade de moldar... a ilusão... leva-nos, mais tarde ou mais cedo, à desilusão!

bjs

 

At 28 setembro, 2006 18:35, Blogger pasta38

" ...tudo o que é mau, nunca é ilusório..." ????? Já se esqueceram das BOMBAS ATÓMICAS que o S.Bush forjou no Iraque? E suas consequências?

Qual se difere ILUSÃO de SONHO?

Não estaremos a negar a nossa peculiar natureza ao negarmos ou a pelo menos monesprezarmos a função da ilusão?

Onde ficam os ideais, progresso, e caminho do Homem sem DIREITO À ILUSÃO?

Mais: Porque dizem que os contos de fadas são irreais? Não são património cultural de toos nós? São bem reais!

Bem-lida sejas ET.

 

At 29 setembro, 2006 09:16, Blogger teorias

arturribeiro, não me parece que nos comentários aqui expostos alguém esteja a negar a importância da ilusão e da fantasia. Entende-se aqui a realidade como aquela que é humanamente partilhada por todos, extrinseca e não internamente constrída (o que me parece fazer toda a diferença). Considerar que os contos de fadas existem, parece-me inegável. Mas apenas na forma, nunca no seu conteúdo... esse é pura fantasia (com a importância que ela poderá ter, como já a defendi anteriormente).
Relativamente ao Sr. Bush o problema não está no facto de na cabeça dele existirem bombas de destruição massiva no Iraque... mas antes no sofrimentos que ele acabou, por causa disso, por infligir aos iraquianos... e esse é tão mau como real... não tenho dúvidas!

Obrigado pelo comentário.

 

At 29 setembro, 2006 10:32, Blogger Ponta Solta

E não será esse forjar de bombas mau, e efectivamente real, uma vez que esse foi o exemplo em que arturribeiro pegou, depois de me parafrasear??? Pegou numa falsa realidade inventada por Mr. Bush, que efectivamente foi uma coisa má e vemos as consequências bem reais!

Não me parece que haja aqui qualquer confusão entre as ilusões de cada um, e os ideiais e o caminho do homem. Não se falou das utopias de algum modo ligadas as social, como o caso do sonho de Luther King, para citar um exemplo.

Quando abordei uma dicotomia Mau vs Real e Bom vs Sonho/Ilusão, abordei o "pessoal" e que acaba por ser comum entre os seres humanos. Acho que quase toda a gente aquando de um acontecimento muito bom a nível pessoal poderá equipará-lo à realização de um sonho, tipo "não acredito ainda que X me aconteceu, parece um sonho (sonho, no oposto de real)"

Acho que ninguém descarta o direito dos seres humanos à ilusão, e menos ainda, menosprezar a sua importância na vida de cada um, acho que precisamente estamos a falar dela dentro da importância que ela tem para cada um.

Quanto aos contos de fada enquanto propriedade cultural, "A bela adormecida", "A branca de neve", para citar exemplos, são propriedade cultural, sim senhor. Aquilo que, grosso modo, acontece dentro desses contos de fada enquanto propriedade cultural indiscutível, não me parece que seja possível de importar para a realidade...